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27 de dezembro de 2014

Bicicleta, o veículo da integração

Bicicleta metrôA bicicleta é um veículo bom para todo tipo de viagem. Ela serve bem tanto para viagens completas – da origem ao destino final –, quanto para viagens parciais – utilizando-a para determinado trecho da viagem.

É o que chamamos de integração modal, ou intermodal: o uso de mais de uma modalidade de deslocamento para realizar uma viagem.

Ou seja, mesmo quem mora longe demais do seu destino para ir de bicicleta – digamos, trabalha longe de casa –, não pode descarta-la totalmente. A viagem pode começar de bicicleta até um terminal de transporte coletivo, onde o deslocamento poderá continuar de ônibus ou metrô. Ou pode, ao contrário, começar de coletivo e terminar de bicicleta.

“Mas onde eu vou deixar a bicicleta no terminal?”, é a pergunta obrigatória. Com efeito, um bicicletário adequado é uma estrutura de integração intermodal que faz falta na quase totalidade dos terminais de transporte de passageiros de todo o Brasil. Toda integração necessita de um elo, e neste caso o elo é um estacionamento. A inexistência ou a precariedade deste elo devem ser atribuídas ao poder público, que privilegia investir em outra modalidade.

Bicicleta rack onibusEm algumas cidades já é possível, para uma determinada parcela da população que mora e/ou trabalha em lugar coincidente, usufruir de bicicletas compartilhadas (ou bicicletas de aluguel, ou ainda bicicletas públicas). A bicicleta é sacada de uma estação do sistema e deixada em outra – perto de casa, perto do terminal do transporte coletivo, perto do trabalho.

Uma bicicleta dobrável aumenta bastante as possibilidades de integração. Ela pode ser carregada no porta malas do carro até um estacionamento e, de lá, servir para completar a viagem até o destino final – com a vantagem, em muitos locais, de poder ser colocada para dentro do prédio, se faltar ali estacionamento para bicicletas. Ela também é mais fácil e leve para entrar em trens e metrôs, respeitados os horários e vagões regulamentados para tanto – os quais tendem a ser ampliados em função do aumento da demanda.

Em ônibus urbanos comuns é difícil e até pouco recomendável carregar uma dobrável, mas não o seria se as empresas de transporte coletivo criassem, em alguns veículos e horários, espaço destinado às bicicletas – experiências positivas já existem para servir de argumento aos empresários e às secretarias de transporte.

Mas no caso de viagens interurbanas é plenamente possível usar a bicicleta como forma de integração modal. Uma bicicleta comum exige um certo preparo, como virar o guidão, talvez tirar um pedal e, dependendo da bolsa – o que é necessário, para proteger tanto a bicicleta quanto a bagagem dos demais convivas –, também a roda dianteira. Mas, também aqui, uma bicicleta dobrável mostra-se extremamente prática: basta dobrá-la, ensaca-la ¬– operação que não leva mais do que 60 segundos – e pronto! Bem, seja de normal ou de dobrável, pode-se ir de bicicleta até a o terminal rodoviário, colocar a bicicleta no bagageiro do ônibus que o levará até a cidade de destino e, lá chegando, a partir do outro terminal rodoviário, realizar os deslocamentos urbanos pretendidos.

A bicicleta é sabidamente um meio de transporte individual e socialmente eficiente. Em curtas e médias distâncias, até 6 km, ela é tão ou mais rápida que as modalidades motorizadas, com as vantagens da sua praticidade, leveza e capilaridade. É a viagem porta a porta.

Bicicletário rua alemanhaA maior parte das cidades brasileiras não tem mais do que 6 km de diâmetro, mesmo assim mais da metade da população brasileira mora em cidades maiores do que isso, onde uma boa parcela destes moradores faz viagens diárias ou ocasionais maiores do que isso – é em casos como estes, para quem não tem fôlego para grandes viagens, que a integração com a bicicleta mostra suas vantagens.

Muitos moradores das megalópoles têm empregos que exigem pouco uso da musculatura e, ainda por cima, não encontram tempo ou outros recursos para praticar uma atividade física e queimar calorias. A bicicleta, mesmo como parte da viagem, pode ser uma possibilidade de preencher essa lacuna.

Viver em uma cidade nos obriga a depender de sistemas que não servem a todos de forma equitativa. O transporte coletivo da maioria das cidades é débil e obriga os seus usuários, com distintas necessidades, a se adaptarem à sua rigidez. O transporte motorizado individual, que trava a si próprio e aos demais sistemas, atua como um corruptor da mobilidade urbana sustentável porque ainda continua sendo tratado como prioridade pública. Neste contexto, a bicicleta, olhada na perspectiva da intermodalidade, é uma ferramenta indispensável para aumentar a independência tanto prática quanto ética do citadino.

 

Texto: André Geraldo Soares

Originalmente publicado na Revista Bicicleta, Ano 4, nº 44, p. 80, Set/2014

 

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