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27 de dezembro de 2021

Os eventos sobre mobilidade nos dois anos de pandemia: o que podemos aprender com a CicloAgenda da UCB

Artigo nº 7 da coluna Canal Aberto

 

 

Por André Geraldo Soares

Coordenador do GT Pesquisa e do Observatório da Bicicleta da UCB – União de Ciclistas do Brasil

 

 

Introdução: os eventos no contexto da pandemia

A pandemia da Covid-19 impactou sobre todas as dimensões da vida humana e provocou, ou acelerou, mudanças nos modos de relacionamento e nas atividades de toda a sociedade. Uma dessas mudanças ocorreu sobre os eventos institucionais.

Os eventos das organizações que atuam no ramo da ciclomobilidade, sobretudo as de base local (municipal e metropolitana), costumavam ser, na vasta maioria dos casos, presenciais e com o propósito de mobilização do seu público direto.

O impedimento das reuniões em recintos fechados a partir de março de 2020, que passaram a ser caracterizadas como “aglomerações”, estancou a realização de eventos presenciais – e, mesmo depois da flexibilização das regras sanitárias, os eventos realizados com ferramentas eletrônicas de comunicação ainda são a maioria.

O início da pandemia (declarada como tal pela Organização Mundial da Saúde em 11/03/2021) praticamente coincidiu com o início das atividades do Observatório da Bicicleta, ou ObservaBici: o centro de referência em ciclomobilidade gerido pela UCB – União de Ciclistas do Brasil foi lançado em 05/02/2021

Dentre as diversas ferramentas do Observatório da Bicicleta, a sua Agenda da Ciclomobilidade, ou CicloAgenda, ainda que não tenha conseguido registrar todos os eventos ocorridos, foi uma das que testemunhou e registrou em maior grau os impactos da pandemia sobre a atuação social em defesa da bicicleta e da mobilidade sustentável em geral.

Para aumentar a compreensão de tais impactos, este artigo realiza uma sistematização e análise dos eventos ocorridos durante a pandemia da Covid-19 usando a base de dados da Agenda da Ciclomobilidade.

Uma vez que não havia uma Agenda com as características da CicloAgenda antes da pandemia, algumas afirmações sobre a situação anterior, para a comparação com o tempo presente, são fruto de estimativas da autoria deste artigo.

Ainda a respeito da relação entre ciclomobilidade e pandemia, da mesma autoria pode ser consultado o artigo Ciclomobilidade e pandemia: novo cenário, renovados desafios, que aborda os primeiros sete meses da pandemia da Covid-19.

 

 

Agenda da Ciclomobilidade: ferramenta eficaz na hora certa

A Agenda da Ciclomobilidade da UCB tem o objetivo de ser a agenda unificada de eventos brasileiros sobre a bicicleta como meio de mobilidade. Especificando, pretende ser a agenda onde os realizadores podem inserir seus eventos, onde tais realizadores podem consultar a grade de eventos a fim de  evitar choque de horários e onde, evidentemente, o público interessado pode informar-se sobre o que está ocorrendo sobre o assunto.

 

Figura 1: recorte da página Agenda da Ciclomobilidade no portal do Observatório da Bicicleta

 

Adicionalmente, a Agenda constitui-se em um importante modo de monitorar e avaliar as ações sobre a temática, pois os eventos ficam registrados em um Banco de Dados de Eventos de Ciclomobilidade e podem ser encontrados nos mecanismos de pesquisa do portal ObservaBici.

E, mais ainda, a Agenda está aberta para receber, e os possui em boa quantidade, eventos de outros temas relacionados direta ou indiretamente com a ciclomobilidade, tais como urbanismo, transporte público e mobilidade a pé, o que favorece o intercâmbio de conhecimentos e a proposição de atividades conjuntas.

Portanto, a CicloAgenda preencheu uma lacuna de informações no cicloativismo brasileiro, que até então não contava com um amplo “mural” de divulgação de suas ações.

Tal lacuna começou a ser preenchida justamente no momento em que mais se fez necessário, no momento em que ocorreu uma profusão de eventos realizados através de ferramentas de comunicação da internet, em que a paralisação dos encontros presenciais precisava de um modo de ser compensada.

 

 

Quantidade e periodicidade: uma agenda cheia

No período compreendido nesta análise, 685 dias (quase 23 meses, entre 05/02/2020 e 21/12/2021), a CicloAgenda conseguiu registrar o total de 315 eventos (Quadro 1), sendo que 3 deles ainda estão por ocorrer no ano de 2022. Além destes eventos, outros 14 ocorreram antes do lançamento do ObservaBici, tendo sido inseridos a título de registro histórico – desta forma, atualmente a CicloAgenda registra 329 eventos.

 

Quadro 1: Quantidade de eventos. Quadro 2: Periodicidade dos eventos

 

O primeiro evento da CicloAgenda ocorreu em 30/03/2020 e abordou o assunto mais relevante deste século – e que figura em quinto lugar na lista de temas mais tratados na CicloAgenda: Em tempos de COVID-19, o desafio e a importância da ciclologística e sua relação com as minorias tratou do Coronavírus e foi realizado pela UCB.

Mas a CicloAgenda também recebeu seis eventos presenciais que foram cancelados devido à pandemia, sendo que um deles, o Bicicultura Belém, posteriormente foi transformado em online.

Neste período, tivemos, em média, um evento sendo realizado ou iniciado a cada 2,17 dias (Quadro 2) e em pelo menos 28 ocasiões tivemos dois ou mais eventos realizados em um mesmo dia (alguns dos quais no mesmo horário). Com isto, em alguns momentos pode ter havido a sensação de “excesso” de eventos.

 

 

Tipos de eventos: a era das lives

A imensa maioria dos eventos, 88,3% (Gráfico 1), foi online e o primeiro evento presencial ocorreu apenas em 25/02/2021 – tal evento foi ao ar livre (como foi o caso de quase todos os eventos presenciais subsequentes) e carregado de simbolismo: a Massa Crítica Mundial #FMB10 foi realizada em diversos países em alusão aos 10 anos do atropelamento de ciclistas em Porto Alegre/RS, atendendo à proposta apresentada pela comissão organizadora do 10º Foro Mundial de la Bicicleta, que ocorreu dali a 6 meses em Rosário/Argentina (15-19/09/2021).

Os eventos online foram, em sua maioria, nas modalidades de “lives”, “webinars” e mesclas de ambas, as quais canalizaram diversos formatos, tais como debates, exposições, palestras, entrevistas e oficinas.

Ainda que o fenômeno das lives e webinars não seja novo, a pandemia ao mesmo tempo que forçou o uso destas modalidades, principalmente para eventos que já estavam planejados, também oportunizou que mais organizações realizassem eventos.

A profusão de eventos online permitiu compreender melhor a sua diferença em relação aos eventos presenciais, explorar suas potencialidades e superar suas limitações – sobre isso, destacamos:

  • Memória e registro: a maior parte dos eventos fica registrada e pode ser assistida posteriormente, apesar das limitações apresentadas em algumas redes sociais
  • Ampliação do público: os eventos são mais acessíveis a públicos de outros setores e envolvidos com outros temas
  • Formação: os eventos online aumentaram a oportunidade de formação dos cicloativistas e substituíram eventos presenciais de caráter mais político
  • Depoimentos: percebeu-se uma grande quantidade de eventos em que a voz foi dada a ativistas, que compartilharam suas vivências, ao invés de a especialistas
  • Facilidade de preparação: diferententemente dos eventos presenciais, os eventos online são atraentes para os realizadores por serem mais fáceis, rápidos e baratos de serem realizados
  • Banalização nas redes sociais: eventos em redes sociais como o Instagram tendem conferir aos eventos, por mais importantes e sérios que estes sejam, o mesmo caráter efêmero e superficial que caracterizam aquelas

 

 

Local e duração: o mundo online e dinâmico

Para apresentar uma panorâmica internacional, o ObservaBici também se preocupou em colocar na CicloAgenda eventos de outros países e idiomas – sendo que, nestes casos, as instituições realizadoras são de porte mais robusto do que a média dos eventos brasileiros. Ao todo, 28 eventos foram estrangeiros,  representando 8,9% do total (Gráfico 3).)

 

Gráfico 3: País do evento. Gráfico 4: Duração do evento

 

Os eventos presenciais geralmente possuem uma duração de três a quatro horas com programações que comportam variedade de temas (ou subtemas) e de expositores, pois precisam aproveitar o esforço de realização, otimizar recursos e evitar deslocamentos sucessivos dos participantes. 

Entretanto, tal duração é considerada excessiva e cansativa para ser assistida remotamente e, por isso, alguns eventos online são divididos em duas ou mais seções com durações costumeiras (entre uma hora e uma hora e meia), o que foi o caso de 52 eventos da CicloAgenda, representando 16,5% do total (Gráfico 4).

 

 

Organizações realizadoras: protagonismo da sociedade civil

Por ser a CicloAgenda uma ferramenta disponibilizada por uma organização da sociedade civil e  por ser a sociedade civil a maior promotora e demandante de uma conversão social para a ciclomobilidade, é esperado que maior parte dos eventos inseridos na CicloAgenda seja realizada por organizações congêneres.

 

Gráfico 5: Setor da realizadora. Gráfico 6: Ramo da realizadora sociedade civil

 

Antes de prosseguir, informamos que por “realizadora” também nos referimos a “co-realizadoras’”, ou seja, nos casos em que um evento foi realizado por mais de uma organização.

Desta forma, 58,0% dos eventos durante a pandemia foram realizados por organizações da sociedade civil (Gráfico 5), seguidas por órgãos ligados a universidades ou outras instituições de ensino superior (geralmente laboratórios ou grupos de pesquisa), com 12,0%; por instituições do setor público, com 10,3% (neste caso, incluindo associações de dirigentes municipais); e por empresas privadas, com os mesmos 10,3% (neste caso, incluindo associações de empresas).

 

Tabela 1: As 20 principais realizadoras de eventos

 

A relação das 20 principais realizadoras de eventos (Tabela 1 e Quadro 3) comprova o protagonismo da sociedade civil: 14 delas são pertencentes a tal setor. A Bike Anjo, amplamente distribuída no país, lidera a lista, com 17 eventos, seguida pela UCB, uma organização de âmbito nacional e que atua em diversas frentes.

Cabe destaque às organizações de base local, como a Aromeiazero, a Ciclocidade e a Ameciclo, o que se justifica por por serem bem estruturadas, sediadas em grandes cidades, com diversidade de temas a tratar e, portanto, susceptíveis de obter maior audiência por parte de residentes em outras cidades.

 

Quadro 3: Nuvem de palavras – Organizadoras de eventos

 

 

Temas dos eventos: diversidade e integração

O nome da ferramenta é Agenda da Ciclomobilidade, mas ela também está aberta, e estimula, o registro de eventos de outras áreas do fazer social que tenham alguma relação com a bicicleta, tais como as modalidades ativas de deslocamento, o transporte público, o planejamento urbano, a proteção climática etc. A análise das organizações realizadoras já demonstrou a diversidade temática dos eventos (Tabela 1 e Quadro 3) e, agora, a análise dos temas abordados a comprova (Tabela 2 e Quadro 4). 

Explicamos que para a presente análise foram utilizadas apenas as “tags” (ou “palavras-chave”) inseridas no cadastramento de cada evento. Estimamos ser possível extrair elementos e variáveis adicionais na análise dos títulos e da descrição dos eventos. Além disso, diversas tags possuem o mesmo ou similar significado e uma análise comparativa delas pode trazer uma melhor compreensão sobre os temas dos eventos.

 

Tabela 2: As 20 principais palavras-chave dos eventos

 

Merece destaque a grande quantidade de eventos relacionados com a temática ambiental, sendo “sustentabilidade” sua palavra central (com 30 menções) – neste campo, houveram eventos sobre clima, meio ambiente e educação ambiental, bem como sobre os acordos internacionais do setor, entre outros.

Com a ampliação dos direitos de mulheres e da comunidade LGBTQIA+, resultado direto das lutas por igualdade de gênero, as tags “gênero” e “mulher” demonstram que os eventos se constituíram em elementos desta luta: na CicloAgenda, representam 6,67% e 4,44% dos eventos, respectivamente.

 

Quadro 4: Nuvem de palavras – Palavras-chave (tags) dos eventos

 

O Dia Mundial Sem Carro e o Dia Nacional do Ciclista são datas de mobilização, sendo que a segunda delas, apesar de mais recente, já tem seu lugar marcado na história. Assim, nos dois anos anteriores houveram diversos eventos para marcar e reforçar estas datas: 4,76% e 4,44% de ocorrências, respectivamente.

Também é relevante que 6,98% dos eventos foram marcados com a tag “mobilidade ativa”, na qual a bicicleta se insere, mas fazendo referência principalmente à mobilidade a pé.

Outra força confirmada nos dados da CicloAgenda é o cicloturismo. O turismo foi uma atividade fortemente prejudicada pela pandemia, entretanto sua modalidade que usa a bicicleta manteve-se como uma alternativa segura em relação às demais modalidades por preservar o distanciamento físico e por percorrer caminhos e infraestrutura de hospedagem menos adensada que o turismo convencional. Para discutir o cicloturismo, nos últimos dois anos a CicloAgenda capturou pelo menos 27 eventos, ou 8,57% do total.

Por fim, mas não menos importante, em consonância com este momento histórico que vive a humanidade e confirmando a pertinência do presente artigo, a pandemia foi abordada em 22 eventos, representando 8,89% do total.

 

 

Colaboratividade: o meio para ampliar os benefícios da CicloAgenda

A CicloAgenda consequiu registrar no período abordado 315 eventos, mas é difícil estimar quantos eventos de interesse da temática deixaram de ser inseridos. Ainda que tenha exercido um constante monitoramento, a equipe do ObservaBici não consegue abarcar todo o cenário.

Por isto, um indicador que pode melhorar, apesar de já ser expressivo, é o seu abastecimento pela comunidade, ou seja, a inserção de eventos por visitantes e usuários do ObservaBici – sobretudo pelo próprio cicloativismo -, e pela comunidade em geral, utilizando o mecanismo de colaboratividade da CicloAgenda.

Até a presente data, através do formulário de inserção, 62 eventos foram inseridos espontaneamente por usuários externos, representando 19,7% do total – os demais 253 eventos foram inseridos pela equipe executiva do ObservaBici através do constante monitoramento das redes sociais e dos meios de comunicação e através dos seus relacionamentos institucionais (Gráfico 2).

A experiência com a CicloAgenda até este momento permite-nos afirmar que seus objetivos são defensáveis e que seu pleno funcionamento contribui para a promoção da ciclomobilidade no Brasil.

A ampliação do uso da CicloAgenda e, portanto, sua consolidação, está na dependência da sua própria continuidade ao longo do tempo e do reforço na divulgação e na comunicação institucional para angariar adesão da comunidade beneficiada.

 

 

Alcance da CicloAgenda: cumprindo sua função de informar

A Agenda da Ciclomobilidade é composta pela sua página própria (também chamada de “Seção” CicloAgenda), onde estão relacionados os eventos ainda por ocorrer e também os já realizados; pela página com o Formulário de Inserção de Eventos, onde qualquer visitante pode inserir eventos (seus ou de outrem, futuros ou já ocorridos); e pelas páginas de cada um dos eventos inseridos e publicados (também chamadas de “Fichas”).

 

Tabela 3: Visitas de página na Agenda e eventos

 

Considerando a capacidade operacional do Observatório da Bicicleta, que possui diversas outras funcionalidades que demandam tanto ou mais dedicação quanto a CicloAgenda, considera-se muito satisfatório o resultado de suas 10.505 visitas de página no período abordado (Tabela 3), mantendo uma média de 15,34 visitas de páginas por dia (135,10 visitas em média a cada um dos 20 eventos mais visitados), alcançando picos de quase 1.000 visitas em dois meses do período compreendido neste estudo (Gráfico 7).

 

Gráfico 7: evolução mensal da visitas de página na Agenda e eventos

 

Ressaltamos que a Avaliação do ObservaBici, realizada aos seus seis meses de vida, obteve, dos respondentes, 75% de avaliação “Ótima” e “Boa” (Observatório da Bicicleta recebe ótima avaliação). Desde então, com o aumento da quantidade de eventos, com a melhoria no seu formulário e com a integração da CicloAgenda com a Google Agenda, a tendência é que sua aprovação tenha melhorado ainda mais. No aniversário de dois anos do ObservaBici será realizada nova avaliação, na qual espera-se confirmar esta tendência.

Um indicador que pode melhorar, apesar de já ser expressivo, é o seu abastecimento pela comunidade, ou seja, a inserção de eventos por visitantes e usuários do ObservaBici e pela comunidade em geral. Até a presente data, através do formulário de inserção, 62 eventos foram inseridos por usuários externos, representando 19,7% do total – os demais 253 eventos foram inseridos pela equipe executiva do ObservaBici através do constante monitoramento das redes sociais e dos meios de comunicação e através dos seus relacionamentos institucionais (Gráfico 2).

A experiência com a CicloAgenda até este momento permite-nos afirmar que seus objetivos são defensáveis e que seu pleno funcionamento contribui para a promoção da ciclomobilidade no Brasil.

A ampliação do uso da CicloAgenda e, portanto, sua consolidação, está na dependência da sua própria continuidade ao longo do tempo e do reforço na divulgação e na comunicação institucional.

 

 

A CicloAgenda da UCB ao dispor da comunidade: utilize a ferramenta e explore seus dados

A Agenda da Ciclomobilidade é uma oferta da UCB – União de Ciclistas do Brasil para a comunidade de interessados, sejam praticantes ou não, sejam ativistas ou não, na bicicleta como modo de mobilidade.

Inserir eventos na CicloAgenda significa não apenas divulgá-los em um mural público unificado, mas também compor um banco de dados sobre eventos, melhorando o entendimento social sobre a ciclomobilidade. Mais ainda, significa fortalecer a ciclomobilidade e apoiar o cicloativismo.

Para inserir eventos na Agenda da Ciclomobilidade basta acessar seu Formulário de Inserção de Eventos: em menos de 5 minutos o evento estará publicado.

Pesquisadores interessados podem obter acesso aos dados dos eventos mediante solicitação e  concordância com os Termos de Uso do Observatório da Bicicleta – para tanto, basta entrar em contato.

 

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Artigo publicado em 28 de dezembro de 2021.

Todas as imagens foram produzidas pelo autor do artigo.

 

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