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10 de março de 2016

A cidade e o gênero

  • Artigo para a coluna “Unindo Ciclos” da UCB na Revista Bicicleta. Ver demais artigos aqui.
  • Edição: Nº 60 – Mar/2016
  • Autora: Letícia Bortolon, conselheira da Rodas da Paz e voluntária da rede Bike Anjo, com colaboradores do GT Gênero da UCB

As cidades têm uma história milenar de protagonismo dos homens – foram imaginadas e construídas dentro de uma perspectiva masculina onde as diferenças entre os gêneros eram historicamente ignoradas e desconsideradas nas escolhas sobre que tipo de espaços públicos estávamos criando e como eles seriam acessados pelas pessoas.

Mas elas têm sido palco de manifestação do crescente anseio de seus habitantes em provar a vida em sociedade de outras formas. A vontade de vivenciar o espaço urbano e a busca por outras alternativas de mobilidade além do carro tem trazido à tona conflitos de interesses e dificuldades que precisam ser acolhidas para a construção de lugares mais humanos, coletivos e seguros.

Quando nos debruçamos sobre temas como planejamento, mobilidade urbana e gênero, não podemos tratar desejos e necessidades de forma homogênea para todos e todas que coabitam a cidade, pois desigualdades estruturais de diversas ordens ainda dominam nossas vidas nos espaços públicos e privados.

Os dados alarmantes sobre violência de gênero no Brasil e no mundo nos mostram que circular pela cidade pode ser uma atividade um tanto desafiadora para qualquer pessoa que não seja um homem branco, heterossexual e classe média.

Contagens de ciclistas revelam uma das faces dessa urbe pouco amigável: há muito menos mulheres do que homens pedalando nas ruas. Em Belo Horizonte, nos melhores resultados as mulheres eram 3% do total de ciclistas. Em Fortaleza e Distrito Federal apenas 2% e 1%, respectivamente.

Além das dificuldades do deslocamento num trânsito violento e sem infraestruturas adequadas, as mulheres ainda acumulam desproporcionalmente funções do trabalho, da casa e de cuidados com a família. Por estes e outro motivos, na cidade machista, patriarcal e centrada no automóvel  a presença de mulheres em bicicletas se torna duplamente revolucionária.

O surgimento de grupos feministas ligados à mobilidade, como as Ciclanas em Fortaleza, Mariazica em Joinville, Massa Crítica Feminista em Belo Horizonte e Pedalinas em São Paulo, são exemplos do movimento de emponderamento feminino tendo a bicicleta como ferramenta nessa luta pelo direito à cidade.

Contudo, é preciso mais: devemos provocar a mudança do pensamento institucional para incorporar definitivamente a questão de gênero em nossos debates. Se queremos mais pessoas utilizando meios de transporte sustentáveis para acessar a cidade, precisamos conhecer as necessidades de cada grupo e trabalhar para que elas sejam observadas e atendidas nos desenhos das políticas públicas.

Essas questões foram inspiração para a criação do Grupo de Trabalho em Gênero da UCB, em novembro de 2015. O GT é uma a esfera institucional onde podemos compartilhar, nos inspirar, debater, questionar, propor e consolidar ações, projetos e campanhas que contribuam para a reinvenção da cidade sob a perspectiva da igualdade de gênero.

Associe-se à UCB e participe do GT Gênero. Acreditamos que através de um olhar plural nos sensibilizaremos para construir cidades mais inclusivas e humanas, onde as pessoas, independente de gênero, orientação sexual, cor, idade e classe social, possam ir a qualquer lugar, do jeito que escolherem, a qualquer hora, sem medo e empecilhos.

Artigo 2 - A cidade e o gênero

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