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06 de agosto de 2020

Contamos o que é importante

Por Glaucia Pereira, Multiplicidade Mobilidade Urbana

Contar é algo que a humanidade faz desde que percebe o mundo, pois contar é de fato a primeira invenção da matemática. E nós humanos contamos o que é importante. Sabemos as quantidades das coisas mais importantes para nós: filhas e filhos, irmão e irmãs, melhores amigos. Assim como as pessoas, o Estado conta o que é importante para ele, principalmente o que se refere a aspectos relevantes para se planejar e arrecadar impostos: quantidade de pessoas, moradias, produção. Da coleta de dados feita pelo Estado nasceu a palavra Estatística.

Neste sentido, o Estado e suas esferas de governo são responsáveis por estatísticas oficiais. No caso da mobilidade urbana, o Código de Trânsito Brasileiro diz no artigo 24 ‘Compete aos órgãos e entidades executivos de trânsito dos Municípios, no âmbito de sua circunscrição:  IV – coletar dados estatísticos e elaborar estudos sobre os acidentes de trânsito e suas causas’. Porém, muitos municípios fazem estatísticas somente de veículos motorizados, deixando de fora a mobilidade ativa. Contagens de ciclistas feitas pelos governos são raras. Por exemplo, em São Paulo, apesar da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET-SP) realizar esse tipo de pesquisa desde 1977, somente em 2014 é que as bicicletas foram incluídas no monitoramento regular anual.

Neste contexto de falta de dados, associações de ciclistas em diversas cidades realizam contagens, prestando um serviço respeitável à sociedade. A contagem serve para apontar a presença de bicicletas em toda a cidade, e permite observar o impacto implementação de infraestrutura e outras políticas cicloviárias, quando existem. 

A contagem tradicional feita com papel e prancheta é uma ferramenta de baixo custo, que pode ser feita em pouco tempo e de forma flexível. É válido lembrar que as contagens precisam ser feitas seguindo métodos, e por mais simples que possa parecer este tipo de pesquisa, é importante ter diretrizes metodológicas. Feito isso, vale celebrar o poder de impacto das contagens. São excelentes ferramentas para argumentação política, valorizam e dão credibilidade às associações que as realizam.

Contagem de Ciclistas realizada em Fortaleza. Foto de Allan Araújo

Para dentro das associações, as contagens de ciclistas são uma excelente forma de engajar novas pessoas voluntárias, porque quem está chegando se sente envolvida, fazendo parte de algo primordial. As contagens apresentam um viés prático, contemplam as experiências de ciclistas sobre como funciona o trânsito na cidade e ao mesmo tempo produzem conteúdo útil e impactante para fazer incidência política. 

Caracterizar a mobilidade urbana faz parte da história das cidades. Ao olhar para a história do século passado, pessoas falam de bondes, trens, alargamento de avenidas, chegada do asfalto e cada vez mais carros nas ruas. Para cidades mais humanas, incluir a bicicleta na narrativa do ambiente urbano é fundamental, e as contagens podem ajudar muito nisso.

Este texto é um convite para que as associações e coletivos de ciclistas e continuem realizando contagens, mesmo em períodos adversos para as políticas públicas. É preciso registrar, mesmo que por um único dia, que ciclistas trafegam em nossas cidades. A bicicleta é importante e precisa ser contata. E assim faremos nossa história.

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